sexta-feira, 11 de março de 2011

I Semana Literária: Entrevistas

Nesta segunda-feira tem início a I Semana Literária da Escola Padre Emílio Miotti e a programação do dia inclui bate-papo com o autor Cícero Eno, no período da manhã. No período da tarde teremos a presença do escritor Felipe Tazzo e da autora Joana Masen. Ambos falarão de seus processos criativos e seus trabalhos publicados, bem como incentivar a leitura e a atividade criativa, principalmente a autoral, ou seja, valorizar o talento de cada um a fim de se expressar por meio da arte; um papo extremamente cabeça para jovens entre 11 e 16 anos. Ambos cederam uma entrevista para a gente e vocês conferem abaixo.



1 – Quando você começou a escrever/cantar/compor?
Eu não sei se eu "comecei" a escrever em algum momento. Quando eu era criança, era um hobby. Ao longo dos anos na escola, eu fui me interessando mais e criando coisas mais interessantes. É lógico que, como qualquer outro escritor pode dizer, antes de ser escritor eu era um grande leitor. Mas, o fato de eu escrever foi se tornando mais sério perto da adolescência e eu comecei a realmente prestar atenção no que estava fazendo, ao invés de simplesmente deixar as palavras fluirem. Literatura foi uma grande companhia para esse período que é difícil para todo mundo.

2 – Como publicou seu primeiro livro ou gravou seu primeiro CD?
Meu primeiro livro 'o livro das coisas que acontecem por aí' foi publicado em 2007, através do FICC.

3 – Como se dá seu processo criativo?
Eu ainda não sei! Uma coisa que ajuda muito é conhecer bem aquilo sobre o que quer se escrever. Então, quando eu penso em algum assunto, busco outros livros, notícias, conversas com pessoas que estejam próximos desse assunto. Depois eu abandono o assunto. Deixo todas as informações que eu consegui encontrar cozinhando em fogo baixo dentro da minha cabeça. Um belo dia, sem maiores explicações, eu sento para escrever e aquilo que eu estava planejando antes começa a acontecer. Como, eu não sei, mas eu sei que ajuda e ajuda muito planejar o seu começo, meio e o fim. Meu último livro começou com uma sinopse de 3 ou 4 linhas, depois eu escrevi algo perto de uma página que resumia o livro todo e depois eu criei a estrutura de capítulos.
Mas, como qualquer obra criativa, a gente começa planejando A, B e C e quando vê está escrevendo X, Y e Z, porque às vezes personagens de um livro cuidam eles mesmos de traçar o seu próprio destino.

4 – Quem mais te apoiou em sua arte?
Acho que família, amigos e pessoas próximas sempre me apoiaram. Ainda bem, sou cercado de gente muito bacana, mas o que me deu mais ânimo para escrever foi quando eu comecei a esticar as
pernas na internet e descobrir que tinha muita gente por aí fazendo coisas parecidas com as que eu gostava de fazer.

5 – Você já alcançou em sua carreira tudo o que queria ou ainda tem sonhos maiores?
Fama, fortuna, iates, mulheres, prêmios internacionais, essas coisas? É... Não ainda não.

6 – Você sofreu ou sofre preconceitos por ter escolhido essa carreira?
Essa, infelizmente, não é a minha carreira. Nem acho que eu conseguiria fazer dela a minha carreira porque escrever é apenas uma das minhas paixões. Mas é possível sim, especialmente hoje em dia que existem muitos empregos relacionados a escrever (infelizmente, nenhum deles é escrever romances de ficção como eu gosto).
Para responder essa pergunta, como eu não faço disso a minha carreira, não sofro e nem sofrerei preconceitos por conta de escrever, mas eu posso garantir que todo mundo no mundo um dia vai sofrer algum tipo de preconceito a partir de algo que é, gosta, ou escolheu, seja escritor, músico, engenheiro, advogado, piloto de avião, o que seja. Melhor coisa nessas horas é engolir em seco, sorrir e lembrar sempre que o preconceito em geral vem sempre de pessoas que não fazem a menor idéia do que está acontecendo com você. Se as pessoas fizessem mais perguntas e menos afirmações, a vida seria muito mais fácil para todos.

7 – Você acha que hoje em dia existem mais oportunidades para o artista, por exemplo, com o advento da internet?
Com certeza. Esses tempos as relações do mundo com as artes e com as oportunidades de carreira está mudando muito, graças entre outras coisas à internet. Essas mudanças ainda não se consolidaram, mas com o tempo vai ficar bem mais fácil enxergá-las.
Um exemplo disso é que eu conheço uma jornalista que tem que escrever 5 textos por dia sobre peças de carro, porque ela trabalha em uma empresa que se especializa em garantir que o site do cliente deles apareça sempre na primeira página do google. Como o google sempre busca pelo maior volume de informações, quantos mais textos houver, melhor será a colocação dessa empresa no google. Não é o sonho dourado de qualquer escritor, mas é uma oportunidade e, mais importante,
é um exercício criativo muito bom.

8 – O que você pensa sobre a arte e a educação caminharem de mãos dadas?
Acho bobagem. Educação e arte são dois conceitos muito amplos e é possível encontrar intersecção entre elas, claro. Por exemplo, não é possível ensinar gramática ou interpretação de texto sem recorrer ao Machado de Assis, claro, mas a arte não pode ser considerada uma ferramenta da educação apenas. É importante lembrar que a maioria dos escritores cresceu em redações de jornais ou em agências de publicidade e nem por isso consideramos que notícias ou anúncios sejam arte. Da mesma forma, não podemos considerar que o ensino de matemática, biologia ou até mesmo cidadania sejam uma arte ou, necessariamente dependam da arte para existir. Também não acredito que a arte realmente torne o ensino melhor ou mais eficaz.
Também é importante lembrar que a arte é utilizada para construir muitas outras coisas da nossa sociedade que não possuam nem apelo comercial e nem apelo artístico. É o caso das novelas, onde muitos artistas trabalham para gerar um entretenimento raso, ou ainda na arquitetura, onde a arte é empregada para criar prédios e casas cujo objetivo é bastante prático: morar.
Arte também pode ser considerada uma forma de transgressão ou ainda apenas uma decoração de um ambiente.

9 – Quais autores/músicos mais influenciam sua criação?
Eu leio muitos escritores diferentes, brasileiros e estrangeiros, mas também busco inspiração em quadrinhos e na música. Gosto muito por exemplo de rock n roll e blues e deixo isso influenciar na minha literatura.

10 – Você pode deixar uma mensagem para o público e incluir o trecho de alguma publicação ou música que tenha te marcado?
Muita gente pensa que o trabalho de um escritor (bem, artistas em geral) é uma atividade solitária, que acontece em um quarto pequeno e em um momento específico 'baixa uma luz' e o artista cria sua obra prima. Não é verdade. A arte acontece no mundo. O que me leva a escrever não são as paredes do meu quarto, mas são as pessoas, os lugares, as comidas, as outras artes, as coisas boas da vida e as más também. O que me leva a escrever é o que está ao alcance dos olhos, dos dedos, do coração ou da mente, mesmo que essas coisas não existam mais, ainda não existem ou nunca venham a existir.
Para chegar aos meus livros eu fiz muitas perguntas, fui a muitos lugares, experimentei muitas coisas, conheci muita gente e deixei que todas essas coisas passassem por mim, sem tentar filtrar ou organizar. E receber as influências de todo o mundo, sem que elas passem pelos nossos preconceitos é muito difícil.
Fazer arte, enfim, é receber.
E porque é tão importante absorver a tudo ao seu redor o tempo todo, para mim é difícil escolher um trecho de uma obra que tenha me marcado. Mas para quem quiser começar a entender sua própria arte um bom conselho é o seguinte:

And the road becomes my bride
I have stripped of all but pride
So in her I do confide
And she keeps me satisfied
Gives me all I need

And with dust in throat
I crave Only knowledge will
I save To the game you stay a slave

Rover, wanderer
Nomad, vagabond
Call me what you will

But I'll take my time anywhere
Free to speak my mind anywhere
And I'll redefine anywhere

Anywhere I roam
Where I lay my head is home

(E da estrada eu fiz minha noiva
Me despi de tudo além do orgulho
Ela é minha confidente
E me faz feliz
Me dá tudo o que eu preciso

E com poeira na garganta eu anseio
Só conhecimento eu guardo
Desse jogo você é escravo
Explorador, andarilho
Nômade, vagabundo

Mas eu gasto meu tempo em qualquer lugar
Livre para dizer o que quiser em qualquer lugar
E eu vou redefinir qualquer lugar

Para qualquer lugar que eu vá
Onde eu deitar a cabeça é meu lar.

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Joana Masen

1 – Quando você começou a escrever/cantar/compor?
Não sei dizer ao certo quando comecei, sei que sempre escrevi, sempre coloquei meus sentimentos em papel, por medo de falar sobre eles com alguém. A poesia entrou em minha vida quando eu tinha uns 10 anos e li um livro com poemas de Cecília Meireles. Gostei e me identifiquei tanto com aquelas palavras, que comecei a tentar fazer poesias também.

2 – Como publicou seu primeiro livro ou gravou seu primeiro CD?
Não tenho ainda um livro publicado, mais por falta de tempo do que por falta de material, mas estou trabalhando para resolver isso. Tenho planos de publicar um livro de poesias, e estou começando a escrever um romance também. Nada muito ambicioso, e caminhando a passos lentos. Talvez para 2012.
3 – Como se dá seu processo criativo?

É incrível como as palavras vem até mim, os poemas vão nascendo em minha cabeça meio que do nada, e vão tomando forma, até que eu os coloco em papel e começo um trabalho de lapidação daquilo, pois eles chegam em forma bruta, e preciso ler e reler muitas vezes, mudando frases e buscando algum sentido para aquelas ideias.

4 – Quem mais te apoiou em sua arte?
Amigos sempre apóiam, e a família também. Meu marido gosta muito do que escrevo, apesar de ter conhecido meu trabalho há pouco tempo, pois eu escrevia e guardava tudo, sem deixar que ninguém lesse. Quando decidi mostrar meu trabalho, ganhei logo uma fã, minha amiga Marina, que lê tudo o que eu escrevo e sempre dá opiniões sinceras.

5 – Você já alcançou em sua carreira tudo o que queria ou ainda tem sonhos maiores?
Meu grande sonho é viver de literatura. Quero escrever muitos livros e incentivar a leitura, principalmente dos adolescentes, que muitas vezes torcem o nariz quando precisam estudar poesia. Tenho certeza que com um pouco de incentivo, eles passarão a gostar de ler e apreciar esse tipo de literatura.

6 – Você sofreu ou sofre preconceitos por ter escolhido essa carreira?
Isso é muito comum. A maioria das pessoas, quando sabe que eu escrevo, lança um olhar descrente, muitas vezes nem comenta sobre o assunto, nem ao menos procura conhecer meu trabalho. Isso é muito triste. Inclusive já me disseram que ser poeta é muito ruim, pois poeta só fica famoso depois de morto.

7 – Você acha que hoje em dia existem mais oportunidades para o artista, por exemplo, com o advento da internet?
A internet é uma ferramenta de divulgação maravilhosa, mas também pode se tornar uma armadilha, já que, ao publicar um texto num blog, por exemplo, ele se torna público, e é muito fácil para qualquer pessoa copiar sua obra como se fosse dela. Infelizmente, o plágio é muito comum no mundo virtual.

8 – O que você pensa sobre a arte e a educação caminharem de mãos dadas?
A educação por si só já deveria ser considerada uma arte. Não é fácil ensinar, os professores têm que se reinventar diariamente para manter os alunos interessados, e isso é quase coisa de artista. É claro que as duas coisas deveriam caminhar juntas, pois a arte é mais um incentivo à educação.

9 – Quais autores/músicos mais influenciam sua criação?
Sou totalmente fã de Cecília Meireles, mas também amo Fernando Pessoa e Vinícius de Moraes. Esses são meus maiores espelhos na hora de escrever. Na música também tenho ídolos, como os Titãs e o U2.

10 – Você pode deixar uma mensagem para o público e incluir o trecho de alguma publicação ou música que tenha te marcado?
Minha mensagem é: Leiam sempre, leiam tudo o que puderem, pois a leitura é o alimento da alma. E para aqueles que se sentirem a vontade, escrevam. Escrever só faz bem.
Minha frase vem da escritora Adélia Prado, que disse em uma entrevista: "Toda arte quer ser poesia". Pensando bem, é uma grande verdade.

Felipe Tazzo
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